segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Ciclo de debates HABITA



AS NOVAS FRONTEIRAS DA GENTRIFICAÇÃO


No dia 16 de Janeiro, pelas 19h, no Mob - Espaço Associativo (Rua dos Anjos 12F, Intendente, Lisboa), terá lugar a sessão inaugural do Ciclo de Debates dinamizado pela HABITA - Associação pelo Direito à Habitação e à Cidade. Abrimos um espaço de reflexão crítica sobre as cidades e o mundo urbano, para melhor combater as desigualdades e injustiças que nele se (re)produzem.

As novas fronteiras da gentrificação

A discussão que desencadearemos em torno da gentrificação estruturar-se-á em duas partes essenciais. A primeira visa fazer uma cartografia conceptual da gentrificação e de como este processo tem vindo a evoluir nos estudos urbanos desde os anos 60 à luz dos principais paradigmas que a enformam. A segunda visa mapear as principais fronteiras e desafios que se colocam à investigação do processo. As pistas de reflexão orientar-se-ão por valorizar frentes recentes e futuras que mais se têm expandido no estudo da gentrificação, nomeadamente: a sua polémica relação com as políticas públicas de reabilitação urbana; a falácia do seu contributo para o mix social e residencial; as máscaras e os eufemismos da regeneração urbana e da cidade criativa para a produção da cidade enquanto máquina de crescimento; a expansão territorial, pluriescalar e glocal da gentrificação, não só a outras áreas da cidade, como também a cidades de todo o mundo, mas simultaneamente como estratégia ideológica de um urbanismo global neoliberal e revanchista. Transversalmente a estas novas fronteiras, concluiremos pela necessidade de valorização na agenda urbana crítica de análises do estudo do fenómeno que se façam sob o signo do papel dos novos movimentos sociais urbanos, dos movimentos cíclicos de capital na produção do espaço e do ambiente construído, da segregação residencial, do aprofundamento da divisão social do espaço urbano e da sua reprodução enquanto espaço social fragmentado e crescentemente polarizado; de forma a evitar o desalojamento do pensamento crítico na explicação do processo.

Luís Mendes é geógrafo e investigador no Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

ASSOCIAÇÕES HABITA E SOS RACISMO PREPARAM QUEIXA POR VIOLAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS CONTRA A CÂMARA MUNICIPAL DA AMADORA E O ESTADO PORTUGUÊS



MOBILIZAÇÃO CONTRA A VIOLÊNCIA DE ESTADO, AS DEMOLIÇÕES E PELA DIGNIDADE

Hoje, dia 18 de Dezembro, Dia Internacional dos Migrantes, pelas 17:30h, um conjunto de pessoas e organizações, entre as quais o Colectivo Habita e o Movimento SOS Racismo, convocam uma ação simbólica de protesto contra a continuação dos despejos forçados, a violência de Estado, nomeadamente, a violência policial, e anunciam a apresentação de uma queixa contra o Estado Português e a Câmara Municipal da Amadora, por violação sistemática dos direitos humanos.
Os despejos violentos têm afectado sobretudo populações negras, ciganas e de origem imigrante, sem que nenhuma alternativa adequada seja proposta às famílias e num momento em que a crise, o desemprego e a falta de rendimentos são cada vez mais evidentes.

Desde 2012 que a CMA, em violação flagrante de todos os princípios básicos, dos direitos, liberdades e garantias, qual intendente de interesses privados, tem vindo a destruir vidas no bairro de Santa Filomena. As sucessivas demolições de casas, inscrevem-se numa política de terrorismo social de Estado. Negar um tecto a alguém é negar-lhe humanidade. Negar-lhe humanidade serve aqui como forma de deslegitimar qualquer direito no acesso à cidadania. A difícil condição social, económica, assim como a fragilidade de muitas situações de saúde ou a vulnerabilidade jurídica de muitos dos moradores e moradoras têm como pano de fundo um estigma racial. O que acontece no bairro de Santa Filomena resulta de várias geografias de exclusão e está arreigado no preconceito racista e no desprezo por quem é pobre.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

18 Dezembro, às 18h, em frente à Câmara Municipal da Amadora

Dia 18 Dezembro, às 18h ! DIA INTERNACIONAL DO MIGRANTE! Vem lutar pelo Direito à Habitação, em frente à Câmara Municipal da Amadora!
A Luta Continua...



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

As pessoas nao são coisas que se ponham em gavetas


…  A propósito das propostas do governo para a habitação social [1] 

 O Conselho de Ministros de 2 de Outubro aprovou alterações à renda apoiadae à renda condicionada que se aplica à habitação detida por entidades públicas ou subsidiadas.
A aprovação desta legislação tem várias implicações, umas positivas e outras negativas, com impactos importantes na vida das pessoas. O seu conteúdo revela também o entendimento de quem propõe sobre o que hoje é a politica pública de habitação. Aqui fica um contributo para a análise.
Houve grande injustiça da renda apoiada (dec. Lei 166/93) em bairros chamados de “sociais” durante anos: pessoas a pagar rendas que chegaram aos 400, 500 e até 600 euros. A renda apoiada foi fonte de empobrecimento de muitas famílias que, tendo um trabalho e um nível de vida médio baixo, viam a sua renda disparar para valores muito elevados, não havendo também adequação da fórmula de cálculo ao número de pessoas do agregado familiar. Por isso em 2008 (e já passaram 6 anos!) o provedor de justiça fez um parecer sobre a desadequação desta legislação ao fim a que se destinava e sobre a injustiça no tratamento igual de casos diferentes. A nova fórmula de cálculo parece ser mais adequada e vem corrigir isso. É uma vitoria! É também fruto de uma luta longa de bairros diversos de norte a sul do país. Há, no entanto, ainda denúncias sobre esta novo regime prejudicar idosos e pessoas com deficiência, assim como acabar com regimes que poderiam ser mais favoráveis praticados por algumas autarquias. 

No entanto, estes projetos partem de alguns pressupostos e afirmam determinadas ideias sobre as quais vale a pena reflectir:

1.        Que as pessoas estão a usufruir de (mais?) um subsídio, agora na forma de desconto na renda. Está estipulado que tem que estar escrito, em cada recibo e no contrato, o montante do que seria o valor real da renda[2] – mas afinal o que é o valor real na habitação? O estipulado pelas finanças? As finanças fixam esta valor em função de quê? Na verdade acabaram com a avaliação que também levava em consideração o estado de conservação do edificado. Não esqueçamos que as pessoas trabalham, pagam impostos.  Para onde deveria ir esse investimento… para o desenvolvimento do estado social, incluindo habitação a preço acessível. Sem ter que estar a escarrapachar na cara das pessoas que estão a 'consumir mais um subsídio' ….. Assim, também devem sujeitar-se a todo o tipo de regras e de escrutínio da sua vida….. pedir autorização para hospedar visitas ou um familiar, ter os rendimentos escrutinados até à exaustão, e as falsas declarações, essas são mencionadas inúmeras vezes assim como as pesadas sanções. Há um clima de vigilância e de punição na proposta da renda apoiada apresentada que só pode decorrer do preconceito...

2.        Assim, vivendo do subsidio, são cidadãos e cidadãs de segunda, pois que, em caso de despejo, este fica totalmente sob a responsabilidade das entidades que administram o parque habitacional[3] e não da justiça independente. Ou seja, são os senhorios que avaliam e procedem com a polícia (como está escrito! No artº 28) ao despejo. Não há aqui lugar para os tribunais, como para as pessoas normais…..

3.        Que os senhorios, fazendo um favor de tal dimensão, não têm nenhuma responsabilidade: não há referências a toda uma panóplia de problemas conhecidos em muitos destes bairros como a má construção, humidades insalubres, entupimentos de vária ordem, fossas mal construídas na sala de jantar de quem vive no rés-do-chão, inexistência de manutenção, mau aspeto das fachadas e consequente maior estigmatização do bairro, ou abandono do espaço público. Há no entanto referências à destruição pelas famílias..... A falta de ligação entre manutenção do edificado, estabelecendo regras claras, e o arredamento e cobrança de renda demonstra que aqui só quem tem responsabilidades, e muitas, são os arrendatários.

4.        Que a renda condicionada só é obrigatória para a habitação de promoção pública. E porque não para o mercado privado, que deveria ter limites nos valores do arrendamento, dando a possibilidade aos senhorios de obterem daí um rendimento importante, mas sem praticar preços especulativos?

5.        E, finalmente, que as pessoas são coisas que se metem em gavetas e que os bairros, chamados sociais, são depósitos de pobres. Assim, sempre que há uma mudança no agregado familiar pode o senhorio transferir o agregado num prazo de três meses, para uma outra habitação dentro do seu concelho ou para outro limítrofe, não interessando o investimento que as pessoas já fizeram na casa, móveis que arranjaram, ligações à comunidade, rotinas estabelecidas, relações sociais, equipamentos que frequentam, etc. Igualmente, o governo parte do princípio que estes bairros são depósitos de pessoas pobres, acabando com a pouca mistura social que ainda existia, pois que se uma família pagar a renda máxima durante 3 anos, pode perder o direito à renovação do contrato de arrendamento[4] . Os contratos tornam-se inseguros uma vez que passam daqui para a frente - todos, mesmo os contratos celebrados anteriormente - a ter uma duração de dez anos e depois apenas de dois anos, aumentando a incerteza do futuro. A possibilidade de participação em todo este processo, é nula.

Na verdade, a habitação de promoção publica ou de renda controlada devia ser a regra e não a exceção, numa sociedade em que a habitação faria parte de um estado social desenvolvido que permite a vivencia dos direitos fundamentais. O problema é a insegurança em todos os mercados habitacionais que temos (inclusivamente o social, como se vê) e a falta de habitação acessível suficiente para as necessidades da população. Resumindo, é a falta de política pública de habitação que garanta o direito a todos/as. De acordo com o INE[5] Portugal tem 2% de habitação social e este parque está em decrescimento porque está a ser vendido. E há um novo mercado de arrendamento, privado, com novas leis, extremamente caro e inseguro (bastam dois meses de atraso para dar lugar ao despejo) e é para esta insegurança que se quer empurrar as pessoas. E se ficarem desempregadas, como será?

O problema é também o preconceito com que se legisla para quem vive em habitação de promoção pública, que é a exceção e associada ao estigma, quando devia ser a normalidade, de qualidade, em cidades feitas pelas pessoas e para elas.



Rita Silva






[1] GUERRA, Isabel (1994) — “As pessoas não são coisas que se ponham em gavetas”, Sociedade e Território, nº 20, pp. 11-26.

 [2] Do contrato de arrendamento, assim como dos recibos de renda quando a eles haja lugar, deve igualmente constar, para efeitos meramente informativos, o valor que corresponderia ao valor real da renda sem o apoio. (artº 18 - 2)

 [3] São da competência dos dirigentes máximos, dos conselhos de administração ou dos órgãos executivos das entidades referidas no número anterior, consoante for o caso, as decisões relativas ao despejo, sem prejuízo da possibilidade de delegação. (Artº 28, 2)

 [4] O senhorio só pode opor-se à renovação do contrato quando, nos três anos que antecedem o termo do contrato ou a sua renovação, se verifiquem as seguintes condições cumulativas: a) O inquilino esteja a pagar uma renda igual ou superior à renda máxima a que se refere o n.º 2 do artigo 22.º; b) A renda máxima a que se refere o n.º 2 do artigo 22.º corresponda a uma taxa de esforço igual ou inferior a 15% do rendimento mensal corrigido do agregado familiar do inquilino. artº 19- 4


[5] http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=152070031&DESTAQUESmodo=2

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

AMADORA: Câmara promove urbicídio, desalojando centenas de pessoas

Bairro de Santa Filomena. Foto Sandra Bernardo.
O Habita – colectivo pelo direito à habitação e à cidade repudia a intenção da CâmaraMunicipal da Amadora (CMA) em promover um verdadeiro urbicídio, através da demolição de todos os bairros auto-construídos deste concelho, desalojando centenas de pessoas.

Esta intenção foi anunciada pela presidente do executivo municipal, Carla Tavares, na última Assembleia Municipal. Em causa estão os Bairros Santa Filomena, 6 de Maio, Estrela de África/Reboleira, Estrada Militar. Dada a completa desactualização do Programa Especial de Realojamento (PER) estima-se que ao longo do prazo indicado, de seis meses, sejam deixadas sem qualquer alternativa centenas de pessoas, agravando situação social e habitacional no concelho, hoje já muito preocupante. Na procura de uma imagem urbana de cidade mais moderna, o executivo municipal promove condições mais atractivas para a especulação imobiliária e não tem pruridos em destruir vidas, alimentar o racismo e promover um autentico urbicídio.

Esta semana, ficamos com um exemplo de como se prevê gastar os dinheiros públicos nesse urbicídio: escavadoras, aparato policial, fiscais e assistentes sociais da CMA foram mobilizados para Santa Filomena, destruindo o tecto de várias famílias - incluindo idosos e crianças -, sem apresentar qualquer alternativa, de forma violenta e ilegal. Mais um passo na destruição do bairro e das vidas de quem aí vive, na defesa dos interesses de um Fundo de Investimento Imobiliário, o Fundo Fechado Especial VillaFundo.

O Habita repudia os despejos sem alternativas adequadas e acusa a CMA de actuar fora da lei. A CMA desrespeita as orientações internacionais sobre despejos e deslocalização da população; as normas regulamentares decretadas pela Constituição da República Portuguesa e pelo Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais, onde Portugal se integra como Estado Parte.

O silêncio da sociedade e a falta de solidariedade são também demolidores. Continuaremos a resistência contra os despejos violentos e pelo direito à Habitação!

Mais info:
Sobre Santa Filomena:
http://www.habita.info/2014/05/dossier-bairro-de-santa-filomena.html
http://www.habita.info/2014/05/urbicidio-esta-e-politica-urbana-na.html
Relatório Temático sobre Segurança de Posse:
http://direitoamoradia.org/wp-content/uploads/2013/02/AHRC2246_English.pdf
Sobre o processo de Consulta:
http://www.ohchr.org/EN/Issues/Housing/Pages/StudyOnSecurityOfTenure.aspx

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Fighting Displacement: A Transatlantic Workshop

Fighting Displacement: A Transatlantic Workshop

De 20 a 22 de Outubro, o HABITA participou num encontro, co-organizado pela Rosa Luxemburg Stiftung (escritório de Nova Iorque) e pela Right to the City Alliance (RTTC), intitulado Fighting Displacement: A Transatlantic Workshop. O primeiro dia foi dedicado a Brooklyn, um dos contextos que, ao longo dos últimos anos, tem sofrido alterações mais profundas na sua paisagem urbana. Primeiro, através do visionamento de um documentário – My Brooklyn – realizado por Kelly Anderson, em 2012, que retrata de um modo bastante expressivo as dinâmicas de gentrificação em curso desde meados da década de 1980; depois, por intermédio de uma visita de estudo, dinamizada por um membro da Families United for Racial and Economic Equality (FUREE), a Crown Heights, um dos bairros em que são mais evidentes as transformações urbanas em curso, a injustiça espacial e os problemas sociais gerados. É nele que podemos encontrar Fulton Street, até há poucos anos a terceira principal artéria comercial nova-iorquina. O grande aumento das rendas, decorrente do tradicional frenesim especulativo sempre que é anunciado mais um grande projeto de regeneração urbana (neste caso, um grande espaço comercial associado a habitação de luxo), levou ao encerramento de uma parte muito significativa dos pequenos estabelecimentos de base étnica. Os mesmos que, ao longo do tempo, foram decisivos para o desenvolvimento da grande dinâmica social e económica que caracterizava Fulton Street mas também para a construção da sua identidade cultural, fortemente ligada aos primórdios do hip-hop. Dado o adiantado estado do processo, a FUREE, juntamente com outras organizações, tem reivindicado a construção de alguns fogos a custos controlados. Trata-se, pois, de mitigar os efeitos destrutivos do urbanismo neoliberal. No entanto, a poucos minutos de distância, no nº277 de Duffield Street, o cenário é mais animador. Resistindo à intensa pressão exercida pela Empire State Development (ESD), agência pública para o desenvolvimento económico, encontra-se a casa onde viveram Thomas e Harriet Truesdell, dois eminentes ativistas do movimento abolicionista. Com efeito, escavações levadas a cabo no local revelaram a existência de túneis pertencentes àquilo que se designa no contexto norte-americano como Underground Railroad, uma extensa rede de túneis e casas clandestinas que abrigavam os escravos foragidos e lhes permitia escapar rumo à liberdade. Apostados em preservar a memória dos seus antepassados, os atuais proprietários, têm defendido a criação da Underground Railroad House, espaço museológico projetado em torno da rede que acabámos de descrever. Mostrando-se totalmente indiferente, a ESD pretende demolir essa mesma casa, colocando em seu lugar um parque de estacionamento subterrâneo, parte integrante de um plano maior que inclui também dois hotéis de luxo e um parque urbano. Para isso, alegou o interesse público (eminent domain). Resulta claro que do lado de lá do Atlântico, como cá, o interesse público se encontra fortemente ligado ao (potencial) valor de mercado do espaço urbano. Felizmente, uma ação contra o município levada a cabo pelos proprietários com o apoio da FUREE, impediu o avanço do plano. Até quando, não sabemos. Mas é um sinal de que, por vezes, podemos encontrar no sistema jurídico algum espaço de manobra para a defesa do direito à habitação e à cidade. A leitura que fazemos dos processos de gentrificação observados mostra claramente o papel da habitação, enquanto um dos pilares centrais da justiça económica e da igualdade. Faz também emergir uma questão política importante, nomeadamente, o individualismo moral, ou seja, uma certa tendência para as vítimas do processo o encararem como um problema pessoal, cuja resolução deve ser também encontrada na esfera individual. Deslocar o problema da gentrificação para um plano coletivo é o desafio que enfrentam muitos movimentos sociais e organizações que trabalham neste campo.
No segundo dia, debruçámo-nos sobre a questão do displacement (deslocalização) que, no domínio da habitação, remete para o desalojamento de famílias sem que estas tenham manifestado qualquer desejo ou tomado qualquer iniciativa nesse sentido. É, pois, um processo que lhes é imposto por forças que lhes são estranhas, nas mais das vezes ligadas aos grandes agentes privados responsáveis pela produção de espaço urbano (ex: investidores, fundos imobiliários), embora possa também ser desencadeado pela ação direta dos poderes públicos. No caso norte-americano, o facto da “indústria imobiliária” ser uma das maiores fontes de financiamento político-partidário, torna-a bastante poderosa e um poderoso agente transformador do espaço urbano. Salvaguardando as devidas diferenças de amplitude e intensidade, também em Portugal, a promiscuidade entre essa “indústria” e os poderes públicos (independentemente da escala considerada) é um dos traços mais característicos do “modelo” de desenvolvimento urbano nacional. Como é bem sabido, o urbanismo, os negócios e a corrupção, vão muitas vezes de braço dado. Para além disso, a deslocalização enquanto problema sócio-espacial, parece estar ligada a uma certa racionalidade económico-cultural que encontra na propriedade um dos seus alicerces. Por outras palavras, se a regra fosse o arrendamento e não a compra de casa própria (colonizando e limitando o futuro das pessoas através do seu endividamento), a experiência da deslocalização não só seria mais facilmente combatida como, caso se concretizasse, seriam menos traumáticas as suas consequências. Por fim, importa também colocar em evidência a relação entre a deslocalização e aquilo a que o geógrafo britânico David Harvey tem vindo a chamar “acumulação por desapossamento”, um processo definidor do capitalismo neoliberal que, por exemplo, se manifesta quando o Estado promove o desalojamento dos grupos sociais mais vulneráveis, quer através de forças repressivas como a polícia, quer através de alterações legislativas ou planos de regeneração urbana. Seguidamente, discutiu-se o potencial inerente ao fortalecimento das relações entre investigação e ativismo. Por exemplo, algumas das vantagens da utilização de documentação original enquanto instrumento de luta social, designadamente: o seu potencial ao nível da educação e da auto-consciencialização popular, a sua importância enquanto ferramenta de legitimação junto do status quo e a mediatização e difusão de uma perspetiva crítica acerca das problemáticas da habitação e da cidade, foram salientados por membros da Causa Justa :: Just Cause e da RTTC. Chamou-se também atenção para a utilização de mapas e outros formatos cartográficos, enquanto instrumentos privilegiados para difundir informação de natureza sócio-espacial, como é aquela que incide sobre as questões urbanas. Por fim, o aprofundamento da articulação entre a comunidade académica e o mundo do ativismo foi também considerado um aspeto importante. Efetivamente, uma das estratégias levadas a cabo por algumas organizações norte-americanas que participaram no workshop tem sido a de encontrar interlocutores privilegiados na academia, levando-os a incluir alguma da investigação-ativista nos seus curricula e a procurar envolver alguns dos seus estudantes na luta pelo direito à habitação e à cidade. Depois, as relações entre a crise económica, as políticas de austeridade e a deslocalização foram exploradas a partir de diferentes contextos geográficos, nomeadamente, Atenas, Barcelona e Lisboa. Relativamente a esta última, colocaram-se em evidência a questão dos despejos e demolições que afetam muitos bairros suburbanos e o potencial gentrificador da nova lei das rendas, bem como algumas dos desafios encontrados pelo HABITA no que diz respeito à sua capacidade de mobilização coletiva. A companheira do Encounter Athens, por seu turno, destacou o facto da vida quotidiana desta metrópole grega ser profundamente marcada pela violenta e sistemática ação dos grupos de extrema-direita contra estrangeiros e minorias étnicas mas também contra alguns movimentos sociais que têm procurado colocar a questão do direito à habitação na agenda política. Por fim, a Plataforma de Afectados por la Hipoteca (PAH) de Barcelona, salientou o facto da sua ação política valorizar constantemente as pequenas vitórias (caso-a-caso). Ademais, defende-se que a banca não pode despejar ninguém, dado que esta foi salva por dinheiro público. As casas são, por isso, também elas, públicas. E ninguém pode ser despejado nestas condições. É um argumento político interessante que poderia, eventualmente, ser também testado no contexto português. Por outro lado, salienta-se também que este movimento espanhol, que apresenta uma notável capacidade mobilizadora, não tem receio de utilizar a ocupação temporária de habitações em risco de despejo enquanto estratégia de luta. Evidentemente, esta estratégia é sempre levada a cabo em articulação com os agregados familiares que se encontram nestas situações, facto de tem contribuido decisivamente para a construção de uma opinião pública favorável, ou seja, de uma certa legitimação social das ocupações.
No último dia, abordaram-se algumas experiências concretas de gentrificação em várias cidades europeias (Hamburgo, Madrid e Berlim) e norte-americanas (Los Angeles). Na metrópole americana, o testemunho da Strategic Actions for Just Economy (SAJE) centrou-se no papel desempenhado pelas universidades, mais concretamente pelos processos de expansão de campus universitários, enquanto promotoras de processos de gentrificação. Aparentemente, em Los Angeles, a lógica de empresarialização das universidades é de tal magnitude que produz já efeitos ao nível da transformação do espaço urbano. Quanto ao contexto europeu, a Recht auf Stadt, apresentou a luta que tem sido travada no conhecido bairro de St. Pauli e a Kotti & Co, tratou o caso de Kreuzberg. Em ambos os casos, trata-se de bairros originalmente marginalizados e considerados pouco atrativos, constituídos por classes populares e comunidades migrantes que, ao chegar à Alemanha, encontravam aí custos de habitação que podiam comportar. Progressivamente, porém, numa tendência que podemos também hoje observar em Lisboa, por exemplo, estes bairros foram sendo gentrificados, sendo “expulsos” muitos dos seus habitantes originais para espaços cada vez mais periféricos e, ao mesmo tempo, bloqueando-se a entrada à maior parte das pessoas. Por último, a PAH de Madrid apresentou um conjunto bastante diversificado de exemplos de gentrificação que, no caso desta cidade, se manifestam não apenas nos bairros operários tradicionais. Por fim, em jeito de conclusão, os diferentes participantes consideraram ter sido uma experiência bastante enriquecedora que deve ter continuidade no futuro. A partilha de experiências, saberes e processos de luta (estratégias e táticas), foi unanimenente vista como uma mais-valia para o trabalho de cada um dos participantes. Foi também decidido que iremos trabalhar com vista a uma maior articulação transatlântica neste domínio e que isso requer a identificação de adversários comuns. No entanto, é preciso levar sempre em linha de conta um dos aspetos mais contrastantes entre os contextos europeu e norte-americano, nomeadamente, a enorme disparidade de recursos disponíveis para que as organizações possam desenvolver o seu trabalho. Enquanto na Europa os recursos são escassos, nos EUA, passa-se o oposto. Este aspeto, evidentemente, não pode ser ignorado quando procuramos robustecer as relações entre as duas margens do Atlântico. Considerou-se também que é fundamental combater a naturalização e valorização dos processos de gentrificação e deslocalização, ou seja, a tendência para, por um lado, considerá-los inevitáveis e intrínsecos ao desenvolvimento urbano das cidades contemporâneas, por outro, vê-los como parte de um processo positivo que, em última instância, beneficiará sempre as sociedades urbanas como um todo. Pelo contrário, acreditamos que ambos são resultado de um conjunto bastante complexo e dinâmico de processos económicos, políticos e culturais que devemos procurar compreender em profundidade. Para melhor os combater.

 André Carmo
28/10/14